
Com a correira típica de fim de ano, meus dias tem sido cheios e à noite me sobra cansaço. Assim sendo, tenho aproveitado esse momento “quero minha cama” para assistir minhas séries favoritas – e não para fazer posts, como vocês já devem ter notado pelo mini marasmo por aqui. Hahaha
Pois foi vendo os primeiros episódios de Boardwalk Empire, que eu e o Rafa chegamos à mesma conclusão: o figurino dessa série é tão digno que merece um post. Então, me esforcei para achar um tempinho e aqui vai…
Pra quem não sabe, Boardwalk Empire é uma série da HBO que tem Martin Scorsese como produtor executivo e roteiro assinado por Terence Winter – o mesmo da “A Família Soprano”. A trama se baseia no livro “Boardwalk Empire: The Birth, High Times, and Corruption of Atlantic City”, de Nelson Johnson, que conta a história do crescimento econômico de Atlantic City a partir de 1920, ano em que a máfia utilizou-se da Lei Seca para aumentar a sua influência.
Por incrível que pareça o “tema” não podia ser mais atual, sabe? Logo no episódio piloto (dirigido especialmente por Martin Scorsese) já cai a ficha que, infelizmente, vamos entender com mais facilidade do que gostaríamos sobre o funcionamento do crime organizado. Afinal, quando vemos Nucky Thompson (interpretado maravilhosamente bem por Steve Buscemi), um dos responsáveis pela proibição do álcool em Atlantic City, oferecendo uma festa com todo o álcool que seus convidados consigam beber, não tem como não lembrar dos mil-e-um escândalos políticos com os quais já estamos “acostumados”.

Para a realização da série, foi feita uma pesquisa enoooorme em torno dos hábitos e costumes da época – tudo para garantir o máximo de veracidade possível à história. Só pra vocês terem uma idéia, o investimento inicial da HBO, para a gravação do episódio piloto, foi de cerca de 18 milhões de dólares!!!
Pedro Beck para o IG Cultura escreveu o seguinte:
“O capricho da emissora em reviver os anos 1920 é tão notório que o telespectador, por algumas vezes, se perde no meio dos diálogos ao deslumbrar a riqueza não só dos cenários e locações, mas dos detalhes e caprichos da produção em ambientar o drama de época – deixando o telespectador boquiaberto com alguns costumes e “way of life” da época.”
E não é exagero, não, tá? Porque li uma entrevista com John Dunn, figurinista da série (e de filmes como “Factory Girl”, “Cassino” e “I’m Not There“), onde ele inclusive cita em tom de brincadeira que está “realmente preocupado” com o “peso” que o figurino está tendo em Boardwalk, com alguns telespectadores dizendo que tem vontade de tirar o som da TV e só ficar vendo as roupas. “I’m getting nervous! It’s starting to feel like it’s distracting”.

John Dunn realmente caprichou. O processo começou quatro meses antes do início da gravação do piloto. A equipe de Dunn fez uma pesquisa minuciosa em museus e bibliotecas, analisando fotos e estudando a alfaiataria dos anos 20 em livros antigos, para identificar as silhuetas exatas dos ternos que seriam usados pelos personagens.
Vale lembrar, que a maioria das fotos da época são todas em preto e branco e descobrir qual a paleta de cores a ser usada foi um processo que consumiu muito tempo de Dunn. Além de pesquisar em restos de roupas que ainda existem, ele foi atrás de amostras de tecidos de fábricas tradicionais que já produziam naquela época e de revistas que descreviam as peças.
“Estamos acostumados a olhar para a década de 1920, em preto e branco. Vemos documentação fotográfica, vemos filmes para o período – todos em preto e branco. Quando eu estava fazendo a pesquisa, foi um choque a quantidade e vivacidade das cores que as pessoas estavam vestindo. Acho que foi uma espécie de reação ao sair do pântano da I Guerra Mundial. Eles faziam combinações de cores muito interessante, como o roxo, mostarda e azul. Eu tive que negociar a quantidade de cores a usar, porque tanta cor pareceria até estranho aos olhos contemporâneos.”
Para mim a combinação exótica de cores nem chama tanta atenção, mas, sim, a qualidade do figurino. Gente, as peças são completamente anos 20, mas com uma cara ótima, sabe? A textura, a cor, o caimento, tudo muito perfeitinho. Nada tem cara de usado, puído, velho e desbotado. Parece que nós é que estamos em 1920, assistindo à novela das 8 do momento, com os personagens usando peças que podemos comprar numa ida ao shopping mais próximo. Hahahaha


E sabe por que temos essa impressão? Porque John Dunn, optou por não usar peças vintage. Na verdade, ele diz que até tentou, mas que – mesmo gastando muito tempo restaurando uma peça antiga – houveram incidentes em fotos onde o vestido estava “perfeito” de manhã e no fim do dia tinha desintegrado. Imagina, então, para gravar 12 episódios como seria?
Impossível, né? Por isso, o figurinista resolveu fazer as peças e encontrou uma boa casa de alfaiates, a Martin Greenfield, em Nova York, que se responsabilizou pelo corte e costura sob medida dos figurinos dos atores principais. Além disso, como queria ser muito preciso, Dunn limitou-se aos tecidos fabricados em de 1920.
“Eu acredito que a maneira que a roupa cai e se encaixa no corpo é parte do que faz parecer do período, e assim ficamos restritos aos tecidos que estavam sendo utilizados para a construção de roupas na época. Todas as peças dos homens são 100% em lã – da Escócia – e a roupa da mulher é sempre de seda, lã ou linho. Com um vestido em poliester eu não poderia reproduzir a sensação de um vestido de 1920.”
E pelo visto ele está certo. Pois o ator Shea Whigham, que interpreta o xerife Elias Thompson, declarou que o figurino trouxe o “peso do império” para o seu guarda-roupa da série. “Quando você coloca aquela roupa, olha ao redor e vê 50 figurantes vestindo a mesma roupa… você entra naquela época”.

Aliás, falando em figurantes, devo dizer que fiquei impressionada ao saber que a equipe de figurino (com 35 a 40 pessoas) teve que vestir mais de 6.000 pessoas! OI?! É muita gente! Afe! Claro que os figurantes não precisam de muitos cuidados e detalhes nas roupas, mas quem já assistiu a série também sabe que os atores principais são vários e cada um tem um estilo muito diferente.

Nucky Thompson
Nucky Thompson, por exemplo, é um homem muito rico e influente e durante vários momentos da série fica claro que ele tem consciência de que o modo que se apresenta é muito importante. Ele sabe o valor da imagem que ele está passando e, por isso, prefere roupas impecavelmente costuradas e cores vibrantes.

Jimmy Darmondy e Al Capone nos tempos de vacas magras

Jimmy Darmondy e Al Capone (a esquerda) subindo na vida com Torrio.
Na contramão, temos Jimmy Darmondy e Al Capone, personagens que não têm o mesma situação social e financeiras que Nucky. Bem no início da temporada, quando Jimmy acaba de voltar da guerra e não tem um emprego, e Al Capone é um simples motorista com esposa e filho pra cuidar, notamos que eles simplesmente não têm roupa. Porém, com o passar do tempo e os negócios mais prósperos, existe uma transformação clara e ambos passam a se vestir com ternos mais bem cortados.

Lucky Luciano
Outra coisa legal de notar é que entre os homens, existe um certo “padrão” de se vestir de acordo com a cidade em que vivem. Lucky Luciano (Arnold Rothstein), de Nova York, tem um guarda-roupa mais monocromático, por exemplo. Apesar de ternos legais, ele tem atitudes grosseiras e deselegantes – um homem bem vestido, mas sem “charme”. Já os homens de Chicago usam cores mais escuras, que os de Atlantic City, onde o cenário à beira-mar exige uma paleta de cores mais suave.

Já nas mulheres podemos ver os primeiros passos do que conhecemos como a silhueta moderna – mais “relaxada”. Chanel tinha começado a desenhar e o corset, apesar de não ter desaparecido por completo, já estava um pouquinho mais “decadente”. As mulheres que saiam para dançar já não o usavam e as primeiras peças de calcinha e sutiã (bem parecidas com as que usamos hoje) começavam a dar as caras.

Lucy Dazinger, Gillian Darmondy, Angela Darmondy e Margaret Schroeder
Lucy Danziger, a namorada fútil de Nucky, é super glamurosa, está sempre bem vestida, com jóias e usa maquiagem pesada. Gillian, a mãe de Jimmy, (pra mim a mais linda everrrr) é elegantérrima, com o cabelo sempre maravilhoso, roupas sexies na medida certa e maquiagem perfeita. Já, Angela Darmody, representa bem a dona de casa sofrida, abandonada, descontente, descabelada e sem maquiagem, enquanto Margaret Schroeder, apesar de muito simples, tem elegância e demonstra que sabe utilizar alguns artifícios para melhorar sua aparência.
O mais lindo é ver como a moda era menos “despudorada” (falou a tia véia) e mais “detalhada”. Os vestidos eram curtos (mas bem longe dos micros que usamos hoje), mas ainda tinham pano suficiente para trabalhar muitos detalhes, bordados, texturas e etc.
Enfim, gente, resumindo o maior post de todos os tempos (se você leu inteirinho comente usando a senha “ninja”, pra eu saber que você é um leitor paciente e atencioso. hahaha), a produção da série toda (figurino, fotografia, cenário, trilha sonora, maquiagem) é impecável e nos leva diretamente ao século passado. Vale ver e rever nas férias.
Garanto grandes elocubrações sobre a moda. Delícia!









Viciei nessa série. É muito boa! E Steve Buscemi, meu deus, como esse cara trabalha bem!
Incrivel este post, Adorei a serie desde o momento q li a premissa, achei td perfeito mas nunca tinha me dado conta do potencial do figurino, mas q subconscientemente eu achava q aquelas roupas tinham um lugar entre os principais atores.vlw como epifania do dia hehehehe
O figurinos de Boardwalk Empire, um espetáculo à parte http://migre.me/46×97
Depois de Mad Men, sabe qual série vai inspirar a gente? http://t.co/S5Rsvp3u (via @fashion4fun_br)
Nesta ilha dos ternos de poliéster, alfaiataria em linho já é um alento. Mais sobre o figurino: http://t.co/KNQoAxX3